Dia: 23 de março de 2026

  • Peça de teatro “Carranca, da proa do barco ao palco” ganha prêmio do IPHAN

    Peça de teatro “Carranca, da proa do barco ao palco” ganha prêmio do IPHAN

    No teatro, nem sempre a gente senta na plateia, por vezes a gente embarca, e é exatamente essa a travessia proposta por “Carranca, da proa do barco ao palco”, do Grupo de Teatro Mistura.

    Com 10 anos em circulação a obra interpretada por Gilberto Morais não é apenas uma encenação, é uma obra de arte que como a própria carranca que representa, foi aos poucos sendo esculpida e ganhando forma enquanto bebia das águas e das oralidades ribeirinhas por onde passou. Não à toa, recentemente recebeu o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do IPHAN, que para além de algo pra se colocar em uma estante, é um reconhecimento irretocável de que nosso patrimônio não é estático, e de que para além da imagem, ele tem significado.

    A montagem brinca com a quebra da quarta parede, mas faz algo ainda mais profundo, derruba as nossas paredes internas, nossos conceitos frágeis e nossas visões simplistas sobre o tema abordado, mas ele faz isso com afeto, como um amigo que te convida a sentar no banco a beira do rio, com uma dose de cachaça e um convite para dialogar, porque embora o ator se apresente sozinho como em um monólogo, o que ele propõe em cena é um diálogo, o publico faz parte da peça tanto quanto o ator e suas carrancas. O cenário é de uma simplicidade cortante, emoldurado por duas carrancas que nos observam e vigiam o tempo todo, no centro, o mínimo necessário: uma mesinha e um banco que sustentam tudo o que é necessário e apenas isso, e é com pouco que o universo imenso do São Francisco vaza para dentro do teatro e de nós, já nos provocando de cara sobre o que é essencial.

    Quando Gilberto assume a figura do velho ribeirinho, o corpo muda o eixo, a máscara serve não como maquiagem para cobrir, mas como expressão para revelar, somos fisgados por uma teatralidade física memorável, a bengala sustenta mais que um corpo, ali ela sustenta também uma história, a voz modula as palavras com rimas potentes que, feito correnteza, parecem mansas, mas sempre encontram um jeito de cutucar algo profundo.

    A cachaça partilhada e o flerte com a venda das carrancas não são meros truques de interação que servem apenas à encenação; são rituais de comunhão, reflexos profundos de um estilo de vida e de uma cultura. Há uma semiótica sensível e bem dosada nessa dose oferecida, não é uma bebida para embriagar, mas para molhar a palavra, para degustar o momento, a fim de que a memória dessa tradição oral não seque na garganta, sem esquecer que essa água é também ardente e carrega a simbologia também dessa dualidade, desce rasgando o peito, como o próprio texto da peça, com suas palavras cortantes, sobre a exploração, o desmatamento e a secura dos rios, depois aquece o peito como o afeto e a teimosia desse povo nordestino, quando você aceita, você aceita também uma dose da vida ribeirinha.

    Esse gole partilhado funciona quase como uma oferenda, então somos convidados a olhar para essas vivências com os olhos de dentro, as carrancas oferecidas e anunciadas são uma recusa a morte dessa tradição, não apenas simbolicamente, o ator leva consigo carrancas de artesãos para serem vendidas, ou repassa o contato dos artesãos para encomendas, fomentando a economia de forma ativa.

    Ao vivo, Vania Nogueira e Cléber Eduão fazem a trilha sonora que dita o compasso das águas, é ritualística e visceral, o ator nos provoca a formar um coro que evoca o que virá logo a seguir: “carranca, carranca!”.

    Próximo do fim, o ator maquia seu rosto com as próprias mãos, mas não maqueia as durezas da exploração e do esquecimento, ele não apenas narra o mito, ele precisa se agigantar para evocar a própria entidade, agora ele é carranca, e lá do alto ele diz “não” a tudo aquilo que seca e consome o rio, o ribeirinho, o nordestino, ele diz não ao esquecimento, a carranca renasce e reafirma sua reXistência.

    Com olhos arregalados e dentes a mostra o espetáculo atinge o seu ponto alto, e nos faz sentir essa expressão em nossos próprios corpos. Sem mais detalhes, apenas vivendo a experiência é possível compreender a dimensão que o espetáculo ocupa.

    Parabéns ao Grupo de Teatro Mistura em nome de Gilberto Morais, você é gigante.

    Hulle Horranna – Coordenadora de comunicação CEPAC